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O Brasil está doente. Socialmente.

Diariamente vemos o noticiário policial tomar cada vez mais espaço nos jornais. Vemos políticos fazendo o que bem entendem com o dinheiro do povo e depois aparecerem com a maior cara-de-pau falando que estão defendendo o nosso país, que trabalham duro por um Brasil melhor. Todos os dias somos feitos de bobos e já nem nos espantamos. E a culpa disso é a sociedade arruinada que estamos mantendo, como um castelo de cartas prestes a desmoronar.

A culpa não é simplesmente dos políticos que estão pouco se lixando para quem os elegeu, tampouco da polícia que não consegue proteger as ruas de forma eficaz. Ou ainda do diretor do hospital que alega falta de médicos ou medicamentos para atender pacientes que se humilham nas filas para não morrerem doentes. A de verdade passa por um conjunto de leis que a cada dia enfraquece o poder do Estado sobre os indivíduos, passa pelo povo que vota nos parlamentares que votam e aprovam essas leis, e passa por um povo que vê o desrespeito às leis como algo completamente aceitável.

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Hoje passou no DFTV uma matéria sobre a falta de respeito às calçadas de Brasília, assim como outra matéria exibida no Jornal Nacional. As calçadas são usadas para dispor mesas, plantar árvores, extender o quintal de casa e até de estacionamento. O direito do pedrestre de poder andar sem ter que disputar espaço com os carros na pista fica prejudicado. E todos os que são flagrados sempre tem uma desculpa na ponta da língua para justificar seus erros.

No Correio Braziliense de domingo (14/06/2009) foi exibida uma matéria sobre o consumo de drogas nas quadras residenciais do Plano Piloto de Brasília. Jovens de classe média alta esbanjando tranquilidade ao fumar maconha em frente a parquinhos infantis e quadras de esporte, como se estivessem fumando um cigarro comum. Pelo que foi descrito, já virou uma verdadeira praga. E para pirorar tudo, os próprios usuários se transformaram em pequenos traficantes, que carregam pequenas quantidades de droga para outros usuários.

A Secretaria de Segurança Pública alega que é muito difícil manter alguém preso por causa da lei 11.343 de 2.006, a punição para quem é enquadrado como consumidor de entorpecentes se restringe a:

Art. 28.  Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:

I – advertência sobre os efeitos das drogas;

II – prestação de serviços à comunidade;

III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.

Além de multa e internação e tratamento em estabelecimento de saúde. Segundo a Secretaria, enquadrar os usuários como traficantes é quase impossível. Essa lei de 2.006 veio aliviar bastante uma lei de 1.976 que previa prisão de seis meses a um ano para o mesmo crime. Aqui pode-se ver uma lei que foi criada à luz da Democracia, mas que acabou por piorar muito as condições da sociedade, pois expõe as crianças da cidade ao tráfico, implementa o consumo de drogas a um número cada vez maior de pessoas, aumenta a criminalidade e ainda tira o poder que o próprio Estado precisa para manter uma sociedade em equilíbrio.

Só como ilustração, segundo a SSP-DF, 65% dos homicídios registrados no DF tiveram alguma ligação com entorpecentes. Estamos falando em mais de 300 vidas que poderiam ter sido poupadas. No caso das calçadas, vemos a própria sociedade pisando na lei, e que prejudica a qualidade de vida de outras pessoas. No das drogas, vemos a população pagando com vidas os efeitos de uma lei que não serve para nada, além da produção de registros nas Delegacias.

Mas sempre existe uma forma de tornar o que temos hoje em algo melhor. Na revista Veja do mesmo domingo (14/06/2009), foi publicada uma entrevista do ex-Prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que governou a cidade com a política de tolerância zero, e conseguiu transformá-la de cidade mais violenta dos EUA na menos violenta. Na entrevista, ele comenta que para que seu plano de Governo desse certo, foi necessário olhar para as pequenas coisas. Segundo ele:

Em Nova York, ninguém queria prender o ladrão de rua, só o assaltante que levou 1 milhão de dólares de um banco ou o chefe do tráfico. O problema é que tanto o ladrãozinho quanto o adolescente que picha muros estão diretamente relacionados ao chefão do tráfico. Um leva ao outro. Um só existe por causa do outro. Antes de mais nada, cidades degradadas pela violência precisam resgatar a moral, o respeito. O que é seu é seu, e eu não posso pichar. Ponto. Também não posso roubar, nem quebrar, nem vender drogas, nem morar na rua. Sem valores morais, toda a sociedade acaba no círculo do crime, de uma forma ou de outra. Se o respeito volta, o crime adoece.

O que temos aqui é um quadro de completa falta de moral e respeito por grande parte da sociedade. Parar em cima da calçada pode parecer inofensivo, mas degrada a moral a que ele se refere. Um povo que não tem moral e respeito pelas leis, não tem também moral de cobrar uma polícia livre de corrupção (porque esta é parte daquela), nem que os políticos mantenham um mínimo de decoro nas suas atividades. Enquanto não se adotar uma postura desenvolvida de achar feio que descumpre as regras do jogo, enquanto não deixarmos de ser o país do jeitinho e da maladragem, continuaremos chorando milhares de vidas perdidas para a violência ou pelo câncer que não pode ser tratado na rede pública de Saúde.

Pense nisso.

País dos espertinhos ou Mundo dos espertinhos?

Certas vezes, vejo algumas cenas que me produzem um estalo mental e fico pensando alguns dias sobre nossa sociedade. Não sobre como ela é “materialmente”, mas sim nos seus fundamentos, que talvez possam explicar os buracos sociais que temos. Outro dia, estava passando de ônibus pela avenida W3 sul, em Brasília e ví 2 carros parados no cruzamento e logo em seguida mais um chegando. Todos iam fazer um retorno e estava esperando a chance de entrar. Mas o problema é que usar os cruzamentos como retorno é proibido, e existia um retorno de verdade a menos de 200 metros dali.

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E isso não é um caso isolado. Observe os engarrafamentos em vias com acostamento. Sempre existe um bando de apressados que têm que usar a faixa por onde deveriam passar viaturas e ambulâncias. Sempre aparece alguém querendo se melhor que os outros, como se os que seguem as regras não tivessem pressa, ou não ficassem furiosos ao ver essas faltas de respeito. Como se regras fossem coisa de trouxas, e não uma forma de organizar uma grande quantidade de pessoas a fim de reduzir conflitos.

Quando a lei seca entrou em vigor, pipocaram na tv e nas conversas de botequim várias tentativas de forma de “driblar” a fiscalização. E isso sempre acontece. Sempre estamos em busca de uma forma de não seguir regras. Não fico de fora dessa, pois também dou minhas deslizadas. Mas nada que prejudique outras pessoas, como desvio de verbas de merenda escolar, direcionamento de licitações, conversas maldosas à meia-boca ou gambiarras na rede elétrica.

E quando converso com pessoas que já moraram em outros países, na maioria deles as pessoas que não seguem as regras tendem a ser discriminadas na sociedade, ao contrário do que ocorre por aqui. Para ilustrar, vejam o Campeonato Inglês de futebol. Se um jogador se jogar no chão para tentar enganar o árbitro, ele tomará uma sonora salva de vaias da torcida. Aqui se xinga o “juíz” por não ter marcado a “falta”. Longe de mim querer ser um moralista, mas talvez essa mania de jeitinho brasileiro possa ser a explicação para tamanha corrupção, falta de ética e por vários flagelos deste país. E aí o tiro sai pela culatra do povo.

Imagem: Mykl Roventine